Terça-feira, 13 de Outubro de 2009

O Fim.

Two years he walks the earth. No phone, no pool, no pets, no cigarettes. Ultimate freedom. An extremist. An aesthetic voyager whose home is the road. Escaped from Atlanta. Thou shalt not return, 'cause "the West is the best." And now after two rambling years comes the final and greatest adventure. The climactic battle to kill the false being within and victoriously conclude the spiritual pilgrimage. Ten days and nights of freight trains and hitchhiking bring him to the Great White North. No longer to be poisoned by civilization he flees, and walks alone upon the land to become lost in the wild

Alexander Supertramp May 1992

 

 

Termino aqui, e assim, este blog.

Obrigado a todos os que leram e opinaram.

Não é o meu fim, mas sim o do blog.

publicado por Gualter Ego às 21:24
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Domingo, 11 de Outubro de 2009

"When you speak to me, it's a song and I know what to say (...)"

Espero,

Quase desespero.

 

Vejo, a luz.

Tu,

Olhas para mim,

Sorris.

 

Falas-me,

Dizes-te inquieta e

Ansiosa.

 

Canto,

Aquela música,

Só para ti,

No escuro.

 

Tu sorris com a boca

E com os olhos,

Mas não me chega.

 

Porque quando a noite acaba

Sinto-me assim,

Pesado e triste,

Como se a cobardia

Se tivesse apoderado de mim,

Quando o que quero é abraçar-te.

 

Vou para a cama

E acordo no outro dia, de manhã,

A sentir-me exactamente,

Como me tinha deitado.

Estou apaixonado.

 

 

 

sinto-me: lamechas
publicado por Gualter Ego às 11:07
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Segunda-feira, 21 de Setembro de 2009

Espelho.

Olho-me:

 

Sob o o meu cabelo

Desgrenhado

Não existe nada.

 

Sob o meu cabelo

Desgrenhado

Há de tudo.

 

Olhos,

Dentes,

Mãos,

Dedos,

Ideias,

Palavras,

Sonhos,

Sorrisos.

publicado por Gualter Ego às 22:30
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Domingo, 20 de Setembro de 2009

Madrugada.

 

Cai em mim
Uma forte luz branca
Vinda do tecto
 
O colchão onde estou
Deitado
Molda-se a mim
Ou à minha alma
Como Chopin para os meus ouvidos
 
Fico nervoso
Quando alguém bate à porta
Do meu quarto
 
Fico nervoso
Quando acordo
E não sei que horas são
Ou que dia é
Ou se o mundo acabou
E eu não reparei
Ou se continua na mesma
E se hei-de chorar por ele
Ou não.
 
Ganhei raízes,
Musgo,
Bolor.
publicado por Gualter Ego às 16:38
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Domingo.

Ao Domingo eu vou à missa.

 

Vou à missa porque acho que é saudável ter fé e reconfortante ter por quem chamar quando estamos aflitos.

 

O problema é que a fé toma parte dos crentes e lucra com a boa vontade, necessidade e até fanatismo das pessoas.

 

Olhem para o Papa, nas suas vestes vistosas, rendadas com os mais finos e caros tecidos com ornamentos chiques e dourados. Isto não é voto de pobreza.

Jesus não se vestia assim, então por que raio o fazem eles?!

 

 

Jesus disse "amai-vos uns aos outros" e na Idade Média milhares de pessoas não-cristãs ou que até eram cristãs mas que eram crentes genuínos e iam contra as regras de boa vida e banquetes, foram perseguidas, torturadas e executadas. Isto não é amor.

 

Depois baixa-me a tensão arterial e fico pálido, quando o padre diz que é mais importante ir à missa do que ir votar no próximo Domingo.

É à conta de Deus que lhe é posta a comida no prato, por isso compreende-se.

 

 

publicado por Gualter Ego às 16:17
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Sábado, 12 de Setembro de 2009

In the cold, cold night - The White Stripes

"I saw you standing on the edge of a running light

I saw you in the corner of that room

Come to me again in the cold, cold night.

(...)

I don't care what other people say,

I'm gonna love you anyway"

 

 

publicado por Gualter Ego às 20:49
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"I just want to... you know... write. I JUST WANT TO FUKING WRITE!"

Acendi uma vela e pousei a agulha no vinil.

 

Foi a primeira vez que senti a música a entrar em mim e aquilo que me passava pela cabeça era exactamente o que o senhor da canção dizia:

 

"Is this the real life? Is this just fantasy? (..)"

 

 

 

Que é real, lá isso é, mas se é possível, não sei.

 

Sonho muitas vezes com o estar em cima de um palco, a tocar guitarra, a sentir, a gritar, a cantar.

 

Tenho orgasmos múltiplos quando oiço o solo da Seven Nation Army ou o início da Highway To Hell ou da Heart-Shaped Box.

 

Tenho um enorme desgosto em não ter nascido mais cedo.

Nos fim dos anos 50, ou assim.

 

Nasci depois de o rock ter morrido pela segunda vez e acho que isso é injusto.

A angústia de ter nascido depois da invasão britânica no rock, depois de Woodstock, do punk, do grunge, é grande demais para ficar apático ao que se passa com a cultura de massas.

 

As pessoas precisam de saber o que é a música. Música boa, daquela que só dois ou três artistas fazem actualmente, sem se estragarem, sem mudarem, sem evoluírem para pior.

Quero viver os anos 60 e os anos 70 e 90.

 

Os 80... pronto... 

 

 

 

publicado por Gualter Ego às 20:33
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Sexta-feira, 11 de Setembro de 2009

Rapaz.

Hoje, vi um rapazito, sozinho, a dar pontapés numa pedra.

 

Usava óculos e vestia uma camisola vermelha de mangas curtas.

 

Fui ter com ele e perguntei-lhe se podia ser amigo dele.

Ele disse que sim.

 

publicado por Gualter Ego às 22:45
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Quem me ouve?

Não sei para quem escrevo.

Não sei por que razão, assim tão entristecido, escrevo.

 

Sei como comecei, que foi como todos os outros começam: a escrever para raparigas.

 

E  escrevi para raparigas.

E escrevi,

                   escrevi,

                                  escrevi.

 

Quanto muito ganhei um punhado de promessas de amor e uns beijos molhados.

 

Agora escrevo para não gritar.

Escrevo para esconder a angústia e talvez alguma debilidade de alma.

Sei que das palavras que escrevo, nasce satisfação e motivação espiritual. Prazer em escrever, tenho-o pouco, mas chega para saber que quero continuar a fazer isto, mesmo que ninguém leia isto.

 

 

"Quem me ouve? Quem me vê?

A vida não me responde

e afinal ninguém me lê."

 

-Fernando Pinto do Amaral

 

publicado por Gualter Ego às 22:25
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De noite.

Veste-me com o branco do teu sorriso

E ensina-me a falar como quem pensa.

 

 

"Esta noite morri muitas vezes, à espera
de um sonho que viesse de repente
e às escuras dançasse com a minha alma
enquanto fosses tu a conduzir
o seu ritmo assombrado nas trevas do corpo,
toda a espiral das horas que se erguessem
no poço dos sentidos. Quem és tu,
promessa imaginária que me ensina
a decifrar as intenções do vento,
a música da chuva nas janelas
sob o frio de fevereiro? O amor
ofereceu-me o teu rosto absoluto,
projectou os teus olhos no meu céu
e segreda-me agora uma palavra:
o teu nome - essa última fala da última
estrela quase a morrer
pouco a pouco embebida no meu próprio sangue
e o meu sangue à procura do teu coração."

Fernando Pinto do Amaral

publicado por Gualter Ego às 18:49
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Quarta-feira, 9 de Setembro de 2009

Discurso Indirecto.

-Liberta-te em mim, vá.

Não sei se consigo.

-Não sejas assim. Vá.

 

 

Hoje: pensei demais.

 

O fim de tarde cor-de-laranja, uma comapnhia adorável e uma história que me faz ter saudades de coisas que não aconteceram, fizeram de mim um trapo emocional e agora estou aqui a ver se consigo escrever o que se passou e o que se passa e talvez o que irá acontecer.

 

Façamos uma divisão de assuntos. A tarde, a companhia, o filme, o pôr do Sol e a música que ressoou por mim a dentro.

 

Passei a tarde dentro d'água, a esquecer-me do mundo e a esquecer-me dos problemas que não são meus.

 

Depois metia a cabeça fora de água enquanto a vontade de gritar me arranhava a garganta mas eu só conseguia sorrir, porque Ela sorria para mim. 

 

Depois, ainda com ela ao meu lado, a ver O filme, deu-me vontade de ir correr com cavalos bravos, de ir calcorrear a neve, de mergulhar numa gaveta que me desse liberdade. Deu-me vontade de fazer a estrada a minha casa.

 

Isto são coisas que não interessam a ninguém e são coisas que eu não sei explicar como deviam ser explicadas porque são os sentimentos mais genuínos que eu alguma vez tive e isso mete-me medo.

 

Amo-vos a todos, amo-me a mim, à água, às árvores e aos bichos.

Amo a tua beleza e o teu sorriso.

E amo-te a ti, mágico das palavras.

 

Vou agarrar-me à minha guitarra, até já.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

publicado por Gualter Ego às 21:22
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O que eu sou.

Basicamente, sou um monte de massa disforme que pensa.

Tenho dois braços, duas pernas, dois olhos, uma boca, um nariz, duas orelhas, pestanas, cabelo, sobrancelhas, possuo genitália masculina e... tenho a capacidade de comunicar através de palavras.

 

Se as palavras fizessem de mim o que sou, o livro da minha vida ou a minha magnus opus estaria completamente em branco.

 

Eu existo. Existo porque penso, mas arrependo-me de pensar.

Quem foi a alma que se lembrou de me dar este poder, dom, talento de pensar?

Foi um sopro divino? É o Espírito Santo que desce em nós e faz com que os corpos sejam mais que isso e tenham alma?

 

Só espero que haja vida depois da morte. E que haja um paraíso de cada religião. E 72 virgens só para mim.

 

As minhas costas doiem-me.

Os meus olhos custam a manter-se abertos e o meu coração é insuficiente para me fazer viver com tranquilidade.

 

Que posso dizer mais?

Sou jovem, tenho sonhos, planos, ambições. Quero coisas, muitas coisas.

Coisas materiais, carnais, espirituais e quero respostas.

Respostas para perguntas que eu não sei fazer. Ainda.

 

 

publicado por Gualter Ego às 00:19
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Terça-feira, 8 de Setembro de 2009

Beans.

Sentia-me tremendamente cansado.

Não conseguia falar, a minha voz havia desaparecido.

Precisava de beber qualquer coisa fresca. Uma cerveja serve.

Estou a lembrar das coisas que me dizias antes de eu dormir.

Não havia uma noite, uma noite sequer em que não me desses um ou dois beijos de boa noite.

Tenho saudades tuas mãe.

Agora vou dormir.

publicado por Gualter Ego às 18:43
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Debaixo de água.

Nasci a 15 de Março.

Por ter nascido nesse dia, sou do signo Peixes.

Talvez seja por isso que eu gosto tanto de água.

 

 

Mergulhar dentro de água é como viajar para outro mundo.

Não há sons, não há gritos, não histeria desnecessária.

Debaixo de água há a leveza do ser, quando fechamos os olhos. Há admiração e inspiração quando vamos lá abaixo e olhamos cá para cima e vemos a refracção da luz do sol, mas, quando me começa a faltar o ar, sinto-me triste e inútil, porque tenho de voltar cá a cima para respirar. Tenho de acordar, de abrir os olhos e de abrir a goela para deixar entrar o ar, se quiser continuar a viver.

É tão cruel que me sinto incapaz de me mexer.

Quem me dera poder respirar debaixo de água.

 

 

publicado por Gualter Ego às 18:37
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O fim da viagem.

 

Eu e o André vamos fazer uma viagem pela Europa inteira numa máquina destas.

Ms daquelas que têm, supostamente, rodas.

E vamos a Amesterdão.

 

Sonhar é tão bom.

 

publicado por Gualter Ego às 17:18
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The Man Who Sold The World

publicado por Gualter Ego às 15:42
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Une Histoire D'amour

1º Acto

Estava todo o teu semblante brilhando.

Estavas tu ali, sentada,

Ohando as teclas do piano,

Vestida de branco,

De seda fina, tecida por anjos.

Aproximei-me de ti

E um sentimento de amor

Incontestável,

Bailava ao som da mais bela das melodias:

Aquela que tocavas para mim.

O contraste do teu vestido branco,

Com a negridão desse teu piano de cauda

Dava-me sede.

Sede de te beijar.

O teu cabelo cheirava a França

E a água do mar.

Ali te despi.

Ali beijei o teu pescoço e os teus ombros.

Ali, éramos um.

Um amor perfeito.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  Acto

 

Sentado no musgo fresco e molhado,

Vendo-te dançar ao som do chilrear

Dos pássaros.

Meus olhos brilhavam ao olhar para ti.

Sentámo-nos à beira-rio,

De mão dada.

Bastava olhar o rio e agarrar a tua mão

Para sentir que não quero mais nada

Senão tu.

A água mergulhava em nós.

Eu mergulhava em ti:

Nos teus olhos, no teu sorriso,

Na tua face angelical.

Não são precisas carícias.

Não são precisos beijos.

Nem sequer promessas ou declarações de amor,

Para saber que isto,

É amor.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

3º acto

 

A tua parte mais obscura,

Existe nesta sala.

De entre os livros, de entre os castiçáis,

Sai pó.

Pó igual àquele que que cercava o meu coração,

Por não amar.

Lá no canto,

Numa velha grafonola,

Toca um Chopin,

Que baila com a fraca luz das velas,

Que se vão derretendo,

Como quem encara o destino

Com tremenda apatia.

A luz tímida dessas mesmas velas

Atinge-te o corpo

Como uma leve brisa de Primavera.

Percorre-te o corpo,

Ilumina-te a alma.

Dá-me a conhecer os teus recantos.

Abraçados, a dançar,

Dou-me, inteiramente,

A ti, meu amor.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

4º Acto

 

 

Crepita esta lenha velha na fogueira.

Olhas para mim,

Como se fosse obra-prima

O som que sai desta guitarra velha.

A voz que sai desta ingénua garganta.

“Who are we?”

Somos aquilo ali do meio.

Chamas, que bailam no escuro da noite.

Somos o frio da noite,

Que nos aproxima.

Somos a água do mar,

A mais sublime fragrância.

E quando o sono vem,

Vamos, de mão dada

(Sempre de mão dada)

Passar ao noite ao Paraíso.

Lá em cima tens um brilho diferente.

Aquele que tens atrás de um piano.

E quando dormes pareces um anjo.

E eu fico ali, a olhar-te,

Porque és bela.

Porque eu te amo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Acto Final.

 

Eu e tu,

Dançando, descalços,

No chão frio.

Somos como dois destinos,

Duas linhas paralelas,

Que se fartaram e se tornaram uma só.

 

publicado por Gualter Ego às 15:36
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Segunda-feira, 7 de Setembro de 2009

Discurso directo.

Às vezes sinto-me lascivo, vil e porco.

Mas mesmo assim consigo ser feliz, ao viver com amigos dentro da minha cabeça, que gostam de mim e falam comigo sobre tudo.

 

Eu não gosto de domingos.

Os domingos para mim, são mentira e depressão. Ao domingo, vou à missa, às compras e janto sempre batatas fritas com frango assado. Depois, já mais de noite, deito-me no sofá, de barriga para baixo, com os olhos fechados, a pensar no que as pessoas pensam de mim.

 

Eu gostava que as pessoas fossem todas sinceras, mas as pessoas não conseguem ser sinceras e ainda bem. Mais vale mentir do que magoar os outros.

 

Eu devia libertar-me mais. Eu devia borrar telas brancas com todas as cores que conseguir comprar nos chineses, que lá é mais barato.

 

Eu apaixonei-me por uma pessoa que não consegue amar e, sinceramente, nao me faz diferença nenhuma, porque não preciso de ser amado, apenas valorizado.

 

Eu gostava de ser artista, e acho que tenho alma e espírito de artista. Quando calha, tiro umas fotografias bonitas, faço umas músicas jeitosas às quais junto uns gritos sofridos a imitar o Kurt. E depois vou para a cama feliz.

 

As outras pessoas intrigam-me. As outras pessoas têm amigos verdadeiros, eu tenho pedaços de mim feitos matéria aos quais eu chamo de amigos. E depois não sei o que fazer com eles.

 

Eu toco guitarra e sei tocar muitas músicas das minhas bandas favoritas. Eu quero ter uma banda, mas não sei se consigo, porque nesta terra não há gente com ideais, não há gente depressiva e traumatizada.

 

Eu não sei mais o que dizer, porque acho que nunca disse tanta coisa sobre mim.

Em verdade, em verdade vos digo: eu sou mais do que aqui está escrito, mas não é muito mais.

 

Eu gostava de ser normal, mas não sou.

Eu sou feliz, mas sou melancólico e gosto da melancolia.

Eu gosto de estar sozinho e de gritar e de me sentar na sanita a cantar.

Eu gosto de ver o Sol nascer e de sonhar com margaridas e dianas e ritas e outras ilusões.

Eu, no fundo, gosto de ser como sou, mas tanta aceitação a mim próprio enjoa-me.

 

Tenho fome.

 

 

publicado por Gualter Ego às 18:12
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Terça-feira, 18 de Agosto de 2009

Antes de outro princípio.

Estava um homem sem-nome a fumar um cigarro numa esquina.

Era de noite, estava frio e estava o céu encoberto.

Por ele passaram putas, bêbados, homens de gravata e sem gravata e passou um rapaz que não havia de ter mais que 18 anos.

 

Ele estava ali como se estivesse escondido. Escondido atrás do cigarro, que chupava devagar.

Quando se acabou o que fumar no cigarro, atirou a beata para o chão e pisou-a com força, levantou o braço e enfiou-se dentro de um táxi.

Tinha havido um acidente na estrada, dois carros que se tocaram. Foram só umas moças e uns riscos na pintura, mas estava difícil os dois condutores chegarem a um acordo. Como o homem estava impaciente e o carro não andava, resolveu sair e ir a pé.

Pagou, saiu do carro e começou a correr.

As pessoas olhavam para ele de lado, outras nem reparavam no vulto negro que passara por elas a correr.

 

 

Chegou à porta de um prédio, tocou à campaínha do 3º esquerdo e esperou.

-Quem é?

-Sou eu. Eu posso explicar tudo.

-Se queres falar, falas aí, falas para a máquina, que eu nem consigo olhar para a tua cara.

-Deixa-me entrar!

-Não, não deixo. Queres falar, fala prá máquina, já disse!

-Maria, eu preciso que tu me ames.

-Cala-te com essa conversa.

-Maria, eu aguentei o teu péssimo gosto musical, o menos que podes fazer por mim é amar-me. Ama-me!

-Vai dormir.

 

Ele foi-se embora do alpendre da porta do prédio, para não dar parte de fraco e como que a mostrar a si mesmo que não tinha o orgulho ferido.

 

Começou a correr outra vez, desta vez foi para um bar.

Entrou, tirou o casaco e sentou-se no canto mais escuro.

publicado por Gualter Ego às 22:53
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Para todas as mulheres, meninas e raparigas.

O cócó cheira mal.

Tudo o resto é sexo e tédio.

publicado por Gualter Ego às 18:16
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I x Love II

Amar é como estar sentado no canto escuro de um bar.

Pouca gente te vê, enquanto tu vês todas as outras pessoas que passam.

 

Eu passei muitos anos assim, sentado nesse tal canto escuro, a afogar as mágoas em uísque sem gelo, até que, um dia, entrou naquele bar, um semblante peculiarmente charmoso, com ares de anjo, devido à luz do sol que entrava pela porta de vidro e a envolvia numa auréola de corpo inteiro.

Tinha cabelo preto, mas brilhante, e os lábios pintados a vermelho garrido, que contrastavam em total harmonia com o seu sorriso imaculadamente branco.

 

Olhou-me nos olhos, agarrou no copo meio cheio (ou eternamente meio vazio) e dirigiu-se a mim. Ora eu não tinha qualquer experiência com o sexo feminino e isso notou-se no suor que jorrava das palmas das minhas mãos.

 

Sentou-se ao meu lado e inventou um nome.

 

-O meu nome é Célia. Prazer.

-João. Igualmente.

 

A este ponto já sentia calores espontâneos a subir-me costas a cima.

 

-Não sei se sabes, mas isto já pode ser considerado história de amor... - disse ela.

 

E tinha ela razão.

Os nervos acalmaram depois de dois copos meio cheios (ou eternamente meio vazios) de uísque.

É sempre assim. O alcóol acalma os nervos, liberta-te as palavras e faz desaparecer o pudor.

 

Ela, que também já tinha bebido a sua quota parte de bebidas alcoólicas, começou a contar histórias de amor passados, de desilusões, das suas tristezas e do seu coração partido, pisado e incendiado.

O seu corpo assim o dizia: -A minha dona já amou muitos homens. Carnalmente, digo.

 

Mas naquela altura ela já não era dona do seu corpo, o seu corpo pertencia aos efeitos do alcóol e beijou-me, como quem está faminto de lábios, língua e saliva.

 

Não resisti e ainda me atirei mais a ela, no sentido não pejorativo da palavra "atirar".

 

Sem que eu não prevesse, ela começou a chorar no meu ombro e a perguntar a ninguém "Porquê?!".

Começou a falar do ex-marido, dos filhos que a rejeitavam, da fome que passava, das noites que ia a outros bares, para ter sexo sem amor, com completos desconhecidos (mas para mim, a partir do momento em que ambos dizem os seus nomes, passam a ser conhecidos, o resto vem por atrelado) .

Ela abraçou-se a mim, ainda a chorar convulsamente e depois começou a secar as lágrimas e a chamar-se de tonta, por estar a chorar no ombro de um recém-conhecido.

Eu não dizia nada e não me mexia.

 

Um bêbado qualquer abordou-a, pediu-lhe uma dança e ela aceitou, nem olhou para mim.

Pouco depois saíram agarrados um ao outro. Aposto que ainda eram desconhecidos, mas o jazz tem destas coisas e consegue fazer desconhecidos quererem foder uns com os outros.

 

O empregado chegou-se ao pé de mim e perguntou se eu desejaria mais uns daqueles copos de uísque eterna e irremediavelmente meios vazios. Eu disse que não e pedi-lhe a conta.

 

A culpa de passar mais uma noite sozinho, a olhar para o tecto, desta vez, não foi minha... foi do Charles Mingus.

 

 

música: Charles Mingus - I x Love; Celia; Freedom
publicado por Gualter Ego às 18:06
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I x Love

Amar é como estar sentado no canto escuro de um bar.

Pouca gente te vê, enquanto tu vês todas as outras pessoas que passam.

 

Eu passei muitos anos assim, sentado nesse tal canto escuro, a afogar as mágoas em uísque sem gelo, até que, um dia, entrou naquele bar, um semblante peculiarmente charmoso, com ares de anjo, devido à luz do sol que entrava pela porta de vidro e a envolvia numa auréola de corpo inteiro.

Tinha cabelo preto, mas brilhante, e os lábios pintados a vermelho garrido, que contrastavam em total harmonia com o seu sorriso imaculadamente branco.

 

Olhou-me nos olhos, agarrou no copo meio cheio (ou eternamente meio vazio) e dirigiu-se a mim. Ora eu não tinha qualquer experiência com o sexo feminino e isso notou-se no suor que jorrava das palmas das minhas mãos.

 

Sentou-se ao meu lado e inventou um nome.

 

-O meu nome é Célia. Prazer.

-João. Igualmente.

 

A este ponto já sentia calores espontâneos a subir-me costas a cima.

 

-Não sei se sabes, mas isto já pode ser considerado história de amor... - disse ela.

 

E tinha ela razão.

Os nervos acalmaram depois de dois copos meio cheios (ou eternamente meio vazios) de uísque.

É sempre assim. O alcóol acalma os nervos, liberta-te as palavras e faz desaparecer o pudor.

 

Ela, que também já tinha bebido a sua quota parte de bebidas alcoólicas, começou a contar histórias de amor passados, de desilusões, das suas tristezas e do seu coração partido, pisado e incendiado.

O seu corpo assim o dizia: -A minha dona já amou muitos homens. Carnalmente, digo.

 

Mas naquela altura ela já não era dona do seu corpo, o seu corpo pertencia aos efeitos do alcóol e beijou-me, como quem está faminto de lábios, língua e saliva.

 

Não resisti e ainda me atirei mais a ela, no sentido não pejorativo da palavra "atirar".

 

Acabámos a noite enrolados nos lençóis da cama dela.

 

 

 

publicado por Gualter Ego às 16:35
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1948

Recebi uma carta esta manhã.

O envelope era igual aos outros envelopes, branco. Trazia lá o selo e o carimbo dos correios, mas não havia remetente.

Como normalmente se costuma fazer às cartas fechadas, abri aquela que eu segurava com as duas mãos.

Pouca coisa lá dizia, mas o pouco chegou para começar a suar da testa e das mãos, para começar a tremer e com ganas de chorar, mas naquele tempo os homens não choravam.

 

"Vem à província, rápido, a tua mulher morreu."

 

Podia parecer uma brincadeira, mas pouca gente sabia que este homem que estava a trabalhar numa alfaiataria era da província.

 

Fiz as minhas malas, consertei o nó da gravata, penteei-me e coloquei o casaco que me tinha sido oferecido pelos anos, pelo meu patrão. Apanhei o comboio de tarde, e no dia seguinte encontrava-me em minha casa, no fundo de um vale profundo, onde o sol nascente e o sol poente não se viam.

Pouca gente sabia que eu a amava, mas todos ficaram a saber que assim era, quando estavam a baixar o caixão, onde ela jazia, para o fundo da cova.

 

Parti no dia seguinte, com um nó no coração.

Os bancos do comboio estava mais rijos do que na viagem de vinda e passei toda a viagem de ida, acordado.

 

Quando cheguei à casa onde ela tinha estado a viver comigo, antes de ter ido à província para cuidar da mãe dela que estava às portas da morte (O destino é um sacana bastante sádico: a senhora minha sogra ainda está viva.), deitei-me no meu lado da cama, mas, quando acordei, estava agarrado à almofada dela, que ainda mantinha o seu cheiro, a sua essência, o nosso amor.

 

Se ainda fosses viva, ou se por graça dos anjos, voltasses à vida, acho que não me importava de ficar cego, porque assim só escutaria a tua voz.

 

 

 

Para a Margarida.

 

 

publicado por Gualter Ego às 14:27
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Domingo, 2 de Agosto de 2009

Sete dias.

O que eu consigo ver

Sentado na cadeira

É muita chuva

E muita madeira

 

Há sete dias

Que não saio da cama

Há sete dias

Que não quero fama

 

Há sete dias

Que o meu ego desce

Há sete dias

Que a fome cresce

 

Atrás de uns óculos

Atrás de cigarro

Atrás de mim

Uma tormenta sem fim

 

Há sete dias

Que não te vejo

Há dois anos

Que não te beijo

 

 

 

Há sete dias

Que não desço as esquedas

Por que é que não vivo

Num conto de fadas

 

Há sete dias

Que viajo sem norte

Há sete dias

Que não falo com a morte

 

publicado por Gualter Ego às 22:28
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Passo dias a olhar para o tecto branco do meu quarto.

Passo dias a olhar para o tecto branco do meu quarto

Passo dias a roer o meu cansaço

Passo dias a pensar

Que sou duro como aço

 

Passo horas a pensar

No próximo passo

Passo noites acordado

A roer o meu cansaço

 

Não sei rimar

Nem sequer falar direito

Não sei amar

E tenho tudo menos um corpo estreito.

 

publicado por Gualter Ego às 22:26
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O cego e a esmola.

Sai desse sofá em chamas

O teu cabelo está a arder

Sai desse corpo pestilento

Não te posso ver morrer

 

Vou comer os meus dedos

Esses ingratos filhos da puta

Afinal de contas a sorte

Nem sempre protege os filhos da luta

 

Morrem estes meus pensamentos

Partem-se as cordas viola

Quanto mais canta o cego

Maior é a esmola

 

publicado por Gualter Ego às 22:25
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I want to be a bad guy.

I look myself in the mirror

My soul looks so much clearer

 

I ate my own fingers

As I stared at my three-colour tigers

 

I shot myself in my toes

And I sing this song as it goes

 

I look myself in the mirror

I’ve lost the dreams of a youngster

 

Sometimes I feel weak and unlucky

Because I’m starting to have acne

 

The other day I fell in love with a song

That got into my head and died in my tongue

 

When I was little I saw a man walking by my house

My mom said he was a bad guy and for that he had no spouse

 

I like to sing in the shower

I don’t like to go to the doctor

 

I love my cats and I love my dog

I don’t like rain, wind and fog

 

But I know one die I’ll die

And in front of my grave bad guys will pass by

 

Bad guys don’t know what love is.

Bad guys don’t  go to the doctor

 

publicado por Gualter Ego às 22:24
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Maria.

O nome dela era Maria

E amava por dinheiro

O nome dela era Maria

E eu já esqueci o seu cheiro.

 

Acho que era uma mistura

De vinho tinto e bourboun

Ou então umas bofadelas

De perfume do bom

 

O seu corpo franzino

Gemia por inteiro

O seu corpo franzino

Amava por dinheiro

 

publicado por Gualter Ego às 22:23
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John Creep, shoe seller and blues player.

This is the story of man

Who use to sell shoes

But one day his wife died

And he started playing the blues

 

He sang about his problems

He sang about is wife

He played the blues

While he sang about his life

 

One day he got in a fight

And he broke his guitar in another man’s chest

He decided that that was no life for him

So he headed to the west

 

In the west he met w girl

That sold her body for money

They fell in love with each other

And she started to call him honey

 

Our hero of this tale

His name was John Creep

And in one unfortunate night

He died in his sleep

 

publicado por Gualter Ego às 22:22
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Eu tenho um nome curioso.

Eu tenho um nome curioso

Eu tenho um ego furioso

Tenho idade para amar

Tenho dedos pra tocar

 

Tenho sete horas pra dormir

Uma estrada pra fugir

Tenho o chapéu do meu avô

Que morreu faz quinze anos

 

Quero olhos pra te ouvir

Peles para sentir

Quero ter  10 metros de altura

E não quero encontrar nenhuma cura

 

Os passáros tocam piano em Dó menor

E as flores cantam músicas que eu sei de cor

 

publicado por Gualter Ego às 22:21
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Chamo-me Zé e às vezes choro.

Quem me dera voltar a ser pequeno.

Quem me dera viver memórias.

Quem me dera ser diferente.

Quem me dera ouvir as horas.

 

Chamo-me Zé e sou feliz.

Passo os dias a beber.

Chamo-me Zé e às vezes choro.

Quem dera saber morrer.

 

Quem me dera ser cego

Para me apaixonar apenas por vozes.

 

publicado por Gualter Ego às 22:20
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Café

Estava escuro, estava frio

Os pinheiros balançavam ao som do vento

É tão bom dormir ao relento

 

Por cima de mim berravam corvos

O chão cheirava a pele de bébé

O céu, sem estrelas, era como o café

 

Robolei e não vi ninguém

Senti arrepios na espinha

A morte esta noita é minha.

 

publicado por Gualter Ego às 22:18
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Sexta-feira, 24 de Julho de 2009

A Trágica História de Maria Amélia Traseiro

Narrador  #1 – Bem vindos, meus amigos, à cidade das luzes!

Narrador  #3 – À cidade das coristas, das bicicletas, do queijo!

Narrador  #2 – E da Maria Amélia Traseiro.

 

(Aparece Maria Amélia Traseiro, com um indiscreto traseiro enorme. )

Narradora #1 – A Maria Amélia era diferente e isto não é nenhuma brincadeira.

Narradora #3 – As  suas medidas: 46 – 51 – 166!

Narrador #2 – Digamos que a sua parte de trás era ligeiramente maior do que a das outras pessoas...

Narrador #1 – Era duas vezes maiores do que a parte traseira de qualquer uma das suas irmãs.

 

Irmã #1 – Gorda.

Irmã #2 – Aberração.

Irmã #3 – Ahm... ahm... (meio atrapalhada) gorda!

 

Narradora #1 – Até que um dia, vestindo o seu Prada XXL.

Narrador #2 – Ela foi ter a Paris, França.

Narradora #3 – Uma cidade onde ser diferente não vos prejudica.

Narrador #2 – Muito pelo contrário, ali, ser diferente... é sinónimo de fama.

Narradora #1 – (Dirigindo-se aos Espectadores) Venham lá, meus amigos. Não tenham medo. Preparem os vossos olhos para o que vão ver, no fim pagam o bilhete, vá, vá. Vocês não querem perder isto, asseguro-vos!

Espectadora #1 – Meu Deus, ela é enorme!

Espectadora #2 - (Dirigindo-se ao público) Como é que ela conseguiu entrar aqui?!

Espectadora #3 – Isto tem de ser falso! Ninguém tem um rabo tão grande!

 

 

Narradora #1 – Eles vinham e não conseguiam tirar os olhos do enorme cu que aquela mulher tinha!

Narradora #3 – E vinham todas as noites!

Narrador #2 – E ela abanava o rabinho, rabinho como quem diz, e eles ficavam maravilhados.

Espectadora #1 – Viste como abanou?!

Espectadora #2 – Credo, até me dá arrepios!

Espectadora #3 – É o efeito que ela faz em todas as pessoas!

Narrador #2 – Não mais uma insignificante e à conta do seu rabo enorme...

Narradora #1 – Ela estava agora nas luzes da ribalta.

Narradora #3 – E na capa da Caras, da Maria e de toda a imprensa cor-de-rosa.

Narrador #2 – Até lhe construiram uma estátua, com mais de 20 metros de altura.

Narradora #1- E decoraram-na com milhares de luzinhas de Natal compradas na loja dos chineses.

Narradora #3 – Mas apesar das fanfarras e das festas que lançavam, a Maria Amélia, no fundo... ai... (começa a chorar e apoia-se no ombro do Narrador #2)

Narrador #2 – A Maria Amélia, apesar de toda essa euforia... sentia-se sozinha e abandonada!

Narrador #1 – Então, numa noite destinada, a seguir ao espectáculo, entrou nos camarins um homem estranho.

Narrador #3 – Tinha cara de mau e cheirava a refogado.

Maria Amélia – Quem és tu?

Desconhecido – Não tenhas medo. Estou aqui para corrigir o teu defeito.

Maria Amélia – O meu... defeito?

Desconhecido – O teu rabo enorme!  A tua dianteira assustadoramente grande! Com as minhas habilidades eu consigo reduzir o tamanho do teu traseiro!

Maria Amélia – Mas as pessoas aqui adoram-me. Até me construíram uma estátua...

Desconhecido – Essa estátua foi feita para gozar contigo! Não consegues ver que és um monstro? Uma aberração da natureza?

Maria Amélia – Vai-te embora daqui!

 

Desconhecido – Não vou enquanto não te oferecer salvação. Eu consigo consertar-te. Eu sou um cirurgião plástico de renome mundial. Chamo-me Silvestre da Silva Bisturi e sou capaz de te por o rabo no seu estado normal. Um corte aqui, outro ali e voilà! Ficas tal qual uma Bridgitte Bardot! Aqui está o meu cartão. Podes ligar-me quer seja dia ou noite.

Narrador #2 – Nessa noite Maria Amélia sonhou com as palavras do Sr. Dr cirurgião plástico.

Desconhecido – (A gritar, fora de palco) Não consegues ver que és um monstro? Uma aberração da natureza?

Maria Amélia – Ele tem razão.

Narradora #1 – Nessa manhã, ela apanhou o 1º autocarro do dia...

Narradora #3 – Para ir ver o Sr. Dr. cirurgião plástico.

Narradora #1 – Mas quis o destino-

Narrador #2 – E o destino, nesta cidade, é quem mais ordena.

Narradora #1 - -que nesse autocarro se sentasse António, o Palhaço.

António – Como vai senhora, muito bem? Costuma andar muito de autocarro?

Narradora #3 – E logo aí, olhando-o de cima a baixo, Maria Amélia viu que ele era, de certa forma, como ela. Vá, também tinha uma característica no mínimo curiosa.

Narrador #2 – Epá, deixa-te de tretas. O António tinha os pés enormes. Calçava o 62, vejam lá!

Maria Amélia – Os teus pés...

António – Sim... os meus pés são gigantes.

Maria Amélia – Combinam com o meu rabo...

António - Acho que estamos destinados a ser mais que amigos.

Narradora 1# - Naquele mesmo dia, foram declarados marido e mulher.

Narradora 3# - Por um padre, à partida, como outro qualquer...

Narrador #2 – (Fazendo de padre) Meus caros paroquianos, estamos aqui hoje reunidos na Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, JC, para os amigos, para reunir no santo matrimónio, Maria Amélia Traseiro e António da Silva Patorro. Aceitam-se um ao outro como marido e mulher?

Maria Amélia – Sim.

António – Eu também.

Narrador #2 – Então beija-a, pá! ‘Tás à espera de quê?

 

Narradora # 1 – E a partir desse dia maria Amélia estava destinada a ser feliz. Porque vocês sabem o que se diz sobre os homens com pés grandes...

Narradora #3 – Vieram para Portugal, arranjaram casa e procriaram que nem coelhos. Tiveram filhos de todos os tamanhos e feitios.

Narrador #2 – Uns tinham orelhas colossais e outros olhos gigantes.

Narradora #1 – Até havia um que tinha os dedos tão grandes, que chegava às estrelas.

Narradora #3 – E uma das meninas tinha a língua do comprimento da cauda de um gato.

Narrador #2 – Um conseguia ler pensamentos.

Narradora #1 – E outro que cuspia fogo.

Narradora #3 – O mais novito falava com os animais.

Narrador #2 – E havia que tirava pombas brancas do... do seu chapéu, claro.

Narradora #1 – Ser diferente passou a ser moda, e a família de Maria Amélia Traseiro e António Patorro eram idolatrados que nem deuses.

Narradora #3 – Até que um dia desapareceram todos. Nignuém sabe para onde foram.

Narrador #2 – O meu cu é tão pequeno.

Narradora #1 - ...adiante! Há quem diga que foram viver para Odivelas, onde foram confundidos com extraterrestres e mortos a tiro.

Narradora # 3 – Ai credo... espero que não seja verdade.

Narrador 1# - Acho que nunca se irá saber se é verdade ou não... estas histórias também nunca acabam bem...

Narrador #2 – Bem, meus amigos, chegou a parte em que nos vamos embora... esta foi a maior história de amor desde “Romeu e Julieta”. Esta é a trágica história de Maria Amélia Traseiro.

 

Fim.

 

publicado por Gualter Ego às 00:26
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Quarta-feira, 15 de Julho de 2009

...

Eram 4 da tarde e estava calor lá fora. Eu estava a tomar banho. De repente, a água ficou quente e a luz apagou-se.

Fiquei quieto e fechei os olhos (que eu fecho os olhos quando está escuro o suificiente para não ver nada). A água batia-me nas costas, descia-me pelas pernas e saía pelo ralo. Tocava o chão como numa sinfonia. Comecei a ficar com medo; estava a sentir-me confortável. 

Fechei a torneira, saí do poliban, abri a porta e a luz bateu-me na cara como a agredir-me, como que a dizer que eu precisava de sair de casa, que eu estava assim por falta de Vitamina D.

Saí pela casa afora, assim como vim ao mundo, imagem nada bonita de se ver, e sentei-me, ainda nu e molhado, na minha cama.

Comecei a falar para as fotografias:

"Tenho saudades tuas, mãe. E tenho saudades de ser teu filho. E eu amo a minha irmã e só Deus sabe o quanto a amo. E estou sozinho, mas ainda não estou assim tão sozinho."

Pus as mãos à cara e lembrei-me da Diana.

"Tinhas mesmo de me invadir o sono? E tens de me pôr assim com tanta inveja de ti? E logo tu, que és mimada e traumatizada..."

Rebolei na cama e encontrei uma mulher morta.

Havia de ser a minha mãe. Tenho saudades dela.

 

 

publicado por Gualter Ego às 16:28
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Surrealismo.

Não vou escrever mais sobre aquilo que escrevi anteriormente.

Vou começar uma história nova, ou então esquecer-me disto.

publicado por Gualter Ego às 16:21
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Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Um olhar.

15 de Março.

 

Estava um domingo solarengo de fim de Inverno.

Estava ele a tocar guitarra numa esquina de uma rua no centro da cidade, para ver se ganhava uns trocos.

Foi aí, então, e nesse momento em que ele tocava o refrão de uma música qualquer, de um cantor qualquer, de uma época mais ou menos boa da música internacional.

Ele fazia, nesse dia, 17 anos e ela devia ter mais uns meses e menos uns centímetros.

Ela aproximou-se da esquina e atirou-lhe uma moeda para o saco da guitarra. Ele parou de tocar e começou a falar para ela, a fazer piadas no meio do diálogo. Quase não se notava que estava apaixonado, que se tinha apaixonado mesmo ali. Foi o início de uma história de amor (Oh, que coisa tão linda!).

publicado por Gualter Ego às 21:33
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Amor.

24 de Junho.

 

Abriu a porta do quarto e teve de fechar os olhos, porque a luz do sol era demasiado forte para uma vista que esteve este tempo todo fechado na escuridão. O chão do corredor não estava frio, o que indicava que estava um dia quente. Estava de tronco nu e isso perturbava-o. "Tenho de cortar o cabelo.", pensou ele.

 

Entrou na cozinha e inspirou com tanta força que lhe doeu o peito. Cheirava-lhe a comida. Cheirava-lhe a queijo e a polpa de tomate. Não havia sinal da mãe. Não a viu, não a vê, não a cheira, e não a ouve. Abre o frigorífico e a brisa fria que vem lá de dentro bate-lhe na cara com brutidão. Tira o leite e bebe três ou quatro goles pelo pacote e volta a pô-lo lá dentro.

Volta ao quarto, tira a roupa da cama, abre o estore e a janela, abre gavetas, abre sacos e malas, fecha gavetas, fecha sacos e malas. Veste qualquer coisa de decente, mete os sacos e as malas às costas, beija o poster do Kurt e fecha a porta como se estivesse num filme.

Vai até à hora, era lá que a mãe estava.

-Mãe, vou-me embora, vou ter com ela.

-Vai, filho, já és um homem.

-Mãe, eu amo-te.

-Eu sei, meu bem.

Vira costas, monta-se na mota dele, nada de vistoso, uma simples Vespa, e desce a rua com a motoreta desengatada. No fundo da rua liga o motor, liga o coração.

publicado por Gualter Ego às 21:20
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Sábado, 13 de Junho de 2009

Suor.

23 de Junho.

 

Acordou com a boca seca, com os pés frios  e com uma valente dor de cabeça.

Que fraco que ele é. Sente já a falta do toque, do calor e dos olhares, das outras pessoas.

Está ali, deitado, imóvel, a olhar para o tecto, branco como os seus pensamentos.

Do  gira-discos, há muitas horas que não sai som. Não sei se dormiu, se não, mas se, de facto, dormiu, não deve ter sido por muito tempo.

 

Lá se levantou para tentar ir acender a luz do candeeiro do tecto, mas arrependeu-se.

Doiam-lhe as pernas e a cabeça e deste modo, achou que a luz que passava pelos buracos da perciana chegariam para lhe iluminar a solidão. Deitou-se, desta vez debaixo dos lençóis, e, imóvel, olhava o tecto. O suor escorria-lhe pela cara, já o conseguindo saborear, num esgar nervoso em que lambia os lábios e deixava à mostra os dentes perfeitos e brancos.

Assim, como do nada, exaltou-se. A sua mãe ainda não havia dito nada e o relógio de parede já indicava três horas e um quarto da tarde. Era como se ela soubesse o que se estava a passar.

 

O Espelho Falso - Magritte

 

 

publicado por Gualter Ego às 14:49
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Sexta-feira, 12 de Junho de 2009

A perfeição tem o cabelo comprido e veste preto. Se é mulher ou não, não sei.

 

publicado por Gualter Ego às 23:50
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Floresta.

22 de Junho.

 

Depois de se ter despedido da mãe, agarrou na guitarra, à qual denominava de Maria, e partiu para uma mata perto de casa.

Caminhou até achar que devia parar. Mijou contra um pinheiro, despiu-se, sentou-se em cima da roupa, que havia posto em cima de uma pedra e começou a tocar.

As sombras vieram vê-lo, o vento veio visitá-lo, a poesia veio ouvi-lo e a revolta veio para lhe encher a o coração de mágua, de tristeza, de pena.

Vestiu-se, e voltou para casa.

Trancou-se no quarto, fechou as persianas, tirou um vinil de trás de um armário e pô-lo no gira-discos.

Deitou-se novamente, mas não fechou os olhos.

 

Listen to the mad,

Listen to the mad.

música: prophet's song - queen
publicado por Gualter Ego às 22:33
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Antes do princípio.

29 de Maio.

 

Eram dez ou onze horas da noite, de um dia qualquer, de um ano qualquer, de uma vida qualquer.

Aquela mulher com quem ele estava era única. Transpirava feminidade e sensualidade. Olhava-o como se o que estivesse a sair das cordas da guitarra, ou da voz dele, fossem obras-primas. Olhava-o como se eles fossem o fogo que arde naquele fogueira ali ao meio, que se entrelaça em luz, no escuro da noite, que extermina o frio entre eles, que os aproxima.

Beijaram-se à meia noite e depois deixaram-se adormecer no areal. No dia seguinte, quando ele acordou, ela já lá não estava.

sinto-me: uma sapatilha
música: ...
publicado por Gualter Ego às 21:42
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Prelúdio.

Before his first step,

He's off again.

 

22 de Junho.

 

Deixou-se acordar às horas a que o destino assim mandasse e o destino mandou que ele acordasse ao meio dia mais sete minutos.

Sentou-se na cama, ainda com os olhos fechados, a sorrir e começou a pensar. A pensar no sonho que havia tido nessa noite, a pensar de como o havia de concretizar. Não era impossível, já outros o tinham feito, já outros haviam caminhado sozinhos, fazendo da estrada a sua casa. Foi, descalço, até casa de banho, sentou-se na sanita, fez o que tinha a fazer, limpou-se, mas deixou-se lá ficar, talvez a admirar o mosaico, ou simplesmente a tentar vencer uma batalha contra aquelas réstias de sono que nos atormentam desde que acordamos, até à noite, quando nos deitamos.

Vestiu-se, calções brancos e camisola de manga curta, também, branca, era Verão, e foi até à cozinha, ter com a mãe. Abraçou-a por trás, beijou-lhe a bochecha e disse "Até mais logo.".

 

sinto-me: Perna de frango.
música: Rearviwmirror - PJ
publicado por Gualter Ego às 20:37
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